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REFLEXÃO

O reconhecimento de Deus

Em cada povo, em cada ser humano, tem de existir, primeiro, a base para a receção dos elevados reconhecimentos de Deus, que se encontram na doutrina de Cristo. Somente partindo de uma base amadurecida para isso, o espírito humano pode e tem de ser conduzido então a todas as possibilidades de um reconhecimento de Deus através da doutrina de Cristo.

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Reflexão sobre a Fortuna

 

De duas maneiras cega a Fortuna

No golfo de uma privança, nunca o perigo é mais certo que quando a fortuna é mais próspera. De duas maneiras cega a fortuna, porque cega como luz e cega como fouce; com uma mão abraça e com a outra corta; com a que abraça introduz a cegueira, e com a que corta mostra o desengano. Consiste a prudência em que se temam os resplendores da luz, para que se não cegue aos rigores do golpe. Não faz mal à embarcação o penedo que sobressai por cima da água; porque para evitar o perigo sabe o piloto desviar a nau por ver manifesto o perigo. Nos penedos que as águas escondem aí náufraga sempre o baixel; porque cobriu com capa de cristal uma ruína de penhasco, e os que, navegando pelo mar, caminham com os olhos nas ondas facilmente se esvaem, e quanto maior é na cabeça o esvaecimento vem a ser mais no coração a fraqueza. Não sabe o que navega quanto tem vencido de distância, se do mesmo mar não tira os olhos, e só fazendo balizas na terra sabe o quanto no mar caminham. É um golfo grande o da privança, e a maior prudência consiste em que se divirtam de alguma vez os olhos, e que façam balizas em terra firme, que é a verdade.

 

A roda da Fortuna

Um homem mimoso da Fortuna

Concedamos, ou finjamos, que houve um homem tão mimoso da fortuna que todos os bens que possui deste mundo, ou herdados ou adquiridos, os logrou pacificamente, sem que a inveja dos iguais nem a potência dos maiores lhe inquietasse a posse ou duvidasse o domínio; que felicidade é a deste homem? Primeiramente com ser fingida e não usada, se os bens são poucos, não deve de estar contente, e se são muitos quem duvida que ainda deseja mais? Sendo certo que em um e outro caso mais vem a padecer que a lograr o que tem.

A Fortuna faz mudar as feições

Dificultosa cousa parece que a fortuna faça mudar as feições: mas ainda mal, porque tão provada está esta verdade na experiência de cada dia! Melhorou de fortuna o vosso maior amigo e ao outro dia já vos olha com outros olhos, já vos ouve com outros ouvidos, já vos fala com outra linguagem: o que ontem era amor hoje é autoridade, o que ontem era rosto hoje é semblante. Pois, meu amigo, que mudança é esta? Quem vos trocou as feições? Que é daqueles olhos benévolos com que me víeis? Que é daqueles ouvidos atento com que me escutáveis? Que é daquele bom rosto com que nos víamos sempre? Oh! Que mudou de fortuna, claro está que havia de mudar as feições.

[…]

A razão disto não a há; a sem-razão sim, e é esta: porque os homens costumam conhecer nos outros não a pessoa, senão a fortuna; e como os chamados amigos e parentes de Job, conheciam nele a fortuna e não a pessoa, por isso não buscaram a pessoa, enquanto a virem necessitada, e buscaram a fortuna, tanto que a viram restituída. De sorte que os amigos de Job bem considerados seus procedimentos, não foram ingratos, porque a sua amizade era com a fortuna e não com a pessoa: e como eles não faltaram à fortuna, ainda que faltaram à pessoa não foi ingratidão. Se faltaram à pessoa, faltaram a quem não conheciam, mas à fortuna, a quem conheciam, não lhe faltaram; tanto que ela voltou tornaram eles.

[…]

Oh! Miserável condição das cousas humanas! Miserável na fortuna adversa e miserável na próspera. Não há fortuna que não traga consigo o desconhecimento: se é próspera, desconhecei-vos; e se é adversa, desconhecem-vos. E se a fortuna é tão enganosa que os homens se desconheçam a si, que muito que seja tão injusta que os outros os desconheçam a eles?

 

Ω

A natureza a todos os homens fez iguais; a fortuna é que fez os altos, os baixos e os baixíssimos.

Ω

A fortuna nunca iguala os desejos dos homens.

Ω

Não há coisa que tanto mude as feições, como a fortuna.

Ω

Os homens costumam conhecer nos outros, não a pessoa, senão a fortuna.

Ω

O certo é que toda a fortuna tem jurisdição no amor; se é adversa, ninguém vos ama, se é próspera, a ninguém amais.

Ω

Enfim, que neste jogo que o Mundo chama da fortuna não consta o ser má ou boa, senão no bom ou mau uso dela.

 

Padre António Vieira

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