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REFLEXÃO

O reconhecimento de Deus

Em cada povo, em cada ser humano, tem de existir, primeiro, a base para a receção dos elevados reconhecimentos de Deus, que se encontram na doutrina de Cristo. Somente partindo de uma base amadurecida para isso, o espírito humano pode e tem de ser conduzido então a todas as possibilidades de um reconhecimento de Deus através da doutrina de Cristo.

Mensagem do Graal

 

 Poema sobre a Vida

 

 

 Poema sobre a Vida

 

Foi-se-me pouco a pouco amortecendo

 Foi-se-me pouco a pouco amortecendo

Foi-se-me pouco a pouco amortecendo

A luz que nesta vida me guiava,

Olhos fitos na qual até contava

Ir os degraus do túmulo descendo.

Em se ela enuveando, em a não vendo,

Já se me a luz de tudo anuveava

Despontava ela apenas, despontava

Logo em minha alma a luz que ia perdendo.

Alma gémea da minha, e ingénua e pura

Como os anjos do céu (se o não sonharam…)

Quis mostrar-me que o bem bem pouco dura!

Não sei se voou, se ma levaram;

Nem saiba eu nunca a minha desventura

Contar aos que inda em vida não choraram…

Ah! Quando no seu colo reclinado,

Colo mais puro e cândido que arminho,

Como abelha na flor do rosmaninho

Osculava seu lábio perfumado;

Quando à luz dos seus olhos (que era vê-los,

E enfeitiçar-se a alma em graça tanta!)

Lia na sua boca a bíblia santa

Escrita em letra cor dos seus cabelos;

Quando a sua mãozinha pondo um dedo

Em seus lábios de rosa pouco aberta,

Como tímida pomba sempre alerta, 

Me impunha ora silêncio, ora segredo;

Quando, como a alvéola, delicada

E linda como a flor que haja mais linda,

Passava como o cisne, ou como ainda

Antes do sol raiar nuvem doirada;

Quando em bálsamo de alma piedosa

Ungia as mãos da súplice indigência,

Como a nuvem nas mãos da Providência

Uma lágrima estila em flor sequiosa;

Quando a cruz do colar do seu pescoço

Estendendo-me os braços, como estende

O símbolo de amor que as almas prende,

Me dizia… o que hás mais dizer não ouço;

Quando, se negra nuvem me espalhava

Por sobre o coração algum desgosto,

Conchegando-me ao seu cândido rosto

No perfume de um riso a dissipava;

Quando o oiro da trança aos ventos dando

E a neve de seu colo e seu vestido,

Pomba que do seu par se ia perdido,

Já de longe lhe ouvia o peito arfando;

Quando o anel da boca luzidia,

Vermelha como a rosa cheia de água,

Em beijos à saudade abrindo a mágoa,

Mil rosas pela face me esparzia;

Tinha o céu da minha alma as sete cores,

Valia-me este mundo um paraíso,

Destilava-me a alma um doce riso,

Debaixo de meus pés brotavam flores!

Deus era inda meu pai, e em quanto pude

Li o Seu nome em tudo quanto existe,

No campo em flor, na praia árida e triste,

No céu… no mar, na terra e… na virtude!

 

Virtude

 Virtude

Virtude! Que é mais que um nome

Essa voz que em ar se esvai,

Se um riso que ao lábio assome

Numa lágrima nos cai!

Que és, virtude, se de luto

Nos vestes o coração?

És a blasfémia de Bruto:

Não és mais que um nome vão!

Abre a flor à luz, que a enleva,

Seu cálix cheio de amor,

E o sol nasce, passa e leva

Consigo perfume e flor!

Que é desses cabelos de oiro

Do mais subido quilate,

Desses lábios escarlate,

Meu tesoiro!

Que é desse hálito que ainda

O coração me perfuma!

Que é desse colo de espuma,

Esmeralda!

Que é dessa franja comprida

Daquele xaile mais leve

Do que a nuvem cor de neve,

Margarida!

Que é dessa alma que me deste,

Dum sorriso, um só que fosse,

Da tua boca tão doce,

Flor celeste!

Tua cabeça que é dela,

A tua cabeça de oiro,

Minha pomba!

Meu tesoiro!

Minha estrela!

De dia a estrela de alva empalidece;

E a luz do dia eterno te há ferido!

Em teu lânguido olhar adormecido

Nunca me um dia em vida amanhecesse!

Foste a concha da praia! A flor parece

Mais ditosa que tu! Quem te há partido,

Meu cálix de cristal onde hei bebido

Os néctares do céu… se um céu houvesse!

Fonte pura das lágrimas que choro,

Quem tão menina e moça desmanchado

Te há pelas nuvens os cabelos de oiro!

Some-te, vela de baixel quebrado!

Some-te, voa, apaga-te, meteoro!

É só mais neste mundo um desgraçado!

E as desgraças podias prevê-las

Quem a terra sustenta no ar,

Quem sustenta no ar as estrelas,

Quem levanta às estrelas o mar.

Deus podia prever a desgraça,

Deus podia prever e não quis!

E não quis, não… se a nuvem que passa

Também pode chamar-se infeliz

 

A vida

A vida

A vida é o dia de hoje,

A vida é ai que mal soa,

A vida é sombra que foge,

A vida é nuvem que voa:

A vida é um sonho tão leve

Que se desfaz como a neve

E como o fumo se esvai:

A vida dura um momento,

Mais leve que o pensamento,

A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,

A vida é sopro suave,

A vida é estrela cadente,

Voa mais leve que a ave:

Nuvem que o vento nos ares,

Onda que o vento nos mares,

Uma após outra lançou,

A vida – pena caída

Da asa de ave ferida –

De vale em vale impelida

A vida o vento a levou!

Como em sonhos o anjo que me afaga

Leva na trança os lírios que lhe pus,

E a luz quando se apaga

Leva aos olhos a luz!

Levou sim, como a folha que desprende

De uma flor delicada o vento sul,

E a estrela que se estende

Nessa abóbada azul;

Como os ávidos olhos de um amante

Levam consigo a luz de um terno olhar,

E vento do levante

Leva a onda do mar!

Como o tenro filhinho quando expira

Leva o beijo dos lábios maternais,

E à alma que suspira

O vento leva os ais!

Ou como leva ao colo a mãe seu filho,

E as asas leva a pomba que voou,

E o sol leva o seu brilho…

O vento ma levou! E Deus,

Tu és piedoso,

Senhor! És Deus e pai!

E ao filho desditoso

Não ouves pois um ai!

Estrelas deste aos ares,

Dás pérolas aos mares,

Ao campo dás a flor,

Frescura dás às fontes,

O lírio dás aos montes,

E roubas-ma, Senhor!

 

Quando numa vista o mundo abranjo

  Ah! quando numa vista o mundo abranjo

Ah! quando numa vista o mundo abranjo,

Estendo os braços e, palpando o mundo,

O céu, a terra e o mar vejo a meus pés,

Buscando em vão a imagem do meu anjo,

Soletro à frouxa luz de um moribundo

Em tudo só: Talvez! ...

Talvez! – É hoje a Bíblia, o livro aberto

Que eu só ponho ante mim nas rochas quando

Vou pelo mundo ver se a posso ver;

E onde, como a palmeira do deserto,

Apenas vejo aos pés inquieta ondeando

A sombra do meu ser!

Meu ser… voou na asa da águia negra

Que, levando-a, só não levou consigo

Desta alma aquele amor!

E quando a luz do sol o mundo alegra,

Crisálida nocturna a sós comigo

Abraço a minha dor!

Dor inútil! Se a flor que ao céu envia

Seus bálsamos se esfolha, e tu no espaço

Achas depois seus átomos subtis,

Inda hás-de ouvir a voz que ouviste um dia…

Como sua Leonor inda ouve o Tasso…

Dante, a sua Beatriz!

-Nunca! Responde a folha que o Outono,

Da haste que a sustinha a mão abrindo,

Ao vento confiou;

-Nunca! Responde a campa onde do sono

E quem talvez sonhava um sonho lindo,

Um dia despertou!

- Nunca! Responde o ai que o lábio vibra;

- Nunca! Responde a rosa que na face

Um dia emurcheceu:

E a onda que um momento se equilibra

Enquanto diz às mais: deixai que eu passe!

E passou e… morreu!

 

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