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Nascido em 1933. Historiador especializado na história das ordens religiosas e da aristocracia nos séculos X a XIII. Autor da obra Identificação de um País (1985), e de várias coletâneas de estudos medievais, entre as quais A nobreza medieval portuguesa (1982), O reino dos mortos na Idade Média (1996), Poderes invisíveis (2001), Naquele Tempo (2009) e ainda D. Afonso Henriques (2006). Estes e outros estudos foram reunidos nas suas Obras Completas, editadas pelo Círculo de Leitores em 2001-2002. Dirigiu várias obras coletivas (História de Portugal, 1993-1994; História da vida privada em Portugal, 2010-2011; Património de origem portuguesa no mundo, 2010). Recebeu o prémio Alfredo Pimenta em 1985 e o Prémio Pessoa em 1987. Foi diretor da Torre do Tombo entre 1996 e 1998. Entre 2000 e 2005 colaborou com o Arquivo Mário Soares na recuperação dos arquivos de Timor-Leste, o que lhe permitiu escrever o livro A dignidade. Konis Santana e a resistência timorense (2005).

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 LEVANTAR O CÉU

de

José Mattoso

  Editora: Temas e debates

Livraria: Fnac

As efetivas ameaças que pairam sobre a Humanidade mostram a urgente necessidade de «desvendar ou antecipar o que nos espera» na nossa relação com o Céu e a Terra. Dominamos a matéria, manipulamos as leis físicas, acumulamos o poder e o dinheiro, aperfeiçoamos a racionalidade, e, todavia, o caminho que escolhemos parece conduzir diretamente ao caos. É bom acreditar que merece a pena «levantar o céu», e lembrarmo-nos de que não estamos sozinhos. Felizmente há muitas mulheres e homens neste mundo a tentar unir esforços para manter o contacto entre o Céu e a Terra. É esse o caminho que a sabedoria ensina a percorrer para encontrar a saída do labirinto em que a vida nos coloca. Os textos aqui reunidos foram escritos ao sabor de solicitações variadas, a que tentei responder na medida das minhas possibilidades e segundo as minhas convicções pessoais. Uns são mais «cívicos», outros mais espirituais; uns inspirados no senso comum, outros na mensagem evangélica; uns recorrem à História, outros a princípios intemporais. Qualquer que seja a linguagem e o pensamento que os inspira, pretendem todos contribuir em alguma coisa para «levantar o Céu».

José Mattoso

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Sabedoria e Fraternidade

Para quem tomar os três conceitos de liberdade, igualdade e fraternidade em si mesmos não pode deixar de os considerar como valores incontestáveis, seja para um cristão, seja para quem for. Por isso, o observador desprevenido acha estranho que a igreja tenha levantado objeções à sua valorização. De facto, a Igreja, durante o longo pontificado do papa Pio IX, e, depois disso, durante muito tempo, não hesitou em condenar o liberalismo em geral e o liberalismo católico em particular. Foi preciso uma muito lenta maturação intelectual e doutrinal para que a vigilância censória do Vaticano atenuasse as suas desconfianças. Quanto à trilogia que os liberais apresentavam quase como um novo Evangelho, a apologética cristã do século XIX interpretava-a como pura hipocrisia: do seu ponto de vista, os liberais não queriam instaurar a igualdade e a fraternidade, mas destruir a igreja. Na verdade, não se pode negar que a maioria dos governos liberais de então considerava a ação anticlerical como necessidade inerente ao triunfo do liberalismo e à implantação do progresso. Em compensação, os católicos raramente souberam distinguir o sentido ideológico da trilogia da sua verdade essencial. Não compreenderam que esse uso ideológico, ao ocultar os interesses da burguesia como classe dominante, não lhe retirava o valor como expressão de um ideal que a Igreja devia também defender. Procurando o sentido próprio dos conceitos, temos de reconhecer que a trilogia, em si mesma, enuncia um ideal. Sendo um ideal, é inatingível neste mundo. Não é por isso que deixa de ser mobilizador de uma prática efetiva. Mas a trilogia tem também uma função ideológica. Como tal, pode esconder objetivos menos desinteressados do que parece. A apologética cristã dos séculos XIX e XX denunciou-a como inconciliável com o cristianismo e com os direitos da Igreja. Pio IX e alguns dos papas que se seguiram condenaram as obras de Lamennais, e os princípios do liberalismo católico. Esqueceram-se da profunda identidade de princípios do que devia unir cristãos e não cristãos na defesa da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Raros foram aqueles católicos que reivindicaram a sua inspiração cristã, isto é, a sua coerência com a mensagem de Jesus Cristo. Raros foram, também, os defensores do liberalismo político que proclamaram a origem evangélica dos seus ideais. […] A sabedoria não pode, também, deixar de denunciar o caráter por assim dizer luciferiano do tipo de progresso proposto pela ideologia maçónica e pelo positivismo, isto é, daquele progresso que esquece o homem e se alcança pela técnica e o voluntarismo racionalista. O positivismo novecentista confiava na realização plena das virtualidades humanas a partir de desenvolvimento técnico e da lógica racional. Mas a evolução socioeconómica do mundo atual parece demonstrar o seu fracasso de forma cada vez mais categórica. A capacidade técnica do homem não garante o sentido da responsabilidade no uso dos meios ao seu dispor. A conceção consumista em que se baseia a economia de mercado e a busca do lucro a qualquer preço, com todas as suas consequências para as grandes massas indefesas, coloca nas mãos de predadores sem escrúpulos a gestão do dinheiro, do poder e dos bens naturais e artificiais: a gestão da água, da terra, da energia, do lixo tóxico e não tóxico, das armas, dos órgãos humanos, da droga, do sexo, da informação, da privacidade. O que o racionalismo trouxe foi a reserva dos benefícios da modernidade e das realizações técnicas para uma minoria cada vez mais reduzida. As estatísticas não mentem. Um panorama dps problemas como a fome, a limitação da energia ou da água, e do que a técnica humana tem conseguido fazer para os resolver, conduz a uma situação de desespero. […] Não sabemos como se faz esta contabilidade do mais e do menos. Só sabemos que temos de abandonar muitos preconceitos, de alijar muita carga inútil e de oferecer mais amor e bondade. Temos de converter o nosso olhar sobre o mundo ao olhar de Jesus Cristo. Temos de converter o nosso coração, e deixar que a Palavra, que é o próprio Jesus Cristo, produza em nós a metanoia. Temos de acreditar, com uma fé inteira, na eficácia dos gestos simbólicos que Jesus nos ensinou a fazer. Então, por meio de um olhar novo sobre o mundo, seremos capazes de ver o que nele já existe de divino, e que é semente e promessa de unidade. E tendo visto a marca do divino, deixar que ela solte em nós esse amor e bondade que são a marca da verdadeira fraternidade.

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É dever sagrado do espírito humano pesquisar por que se encontra na Terra, ou por que motivo vive nesta Criação à qual se encontra ligado por milhares de fios. Nenhum ser humano se tem em conta de tão insignificante, para crer que sua existência fosse sem finalidade, se ele mesmo assim não a tornasse.

Abdruschin

Na Luz da Verdade - Mensagem do Graal