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Deus existe?

Finalmente, apresentamos a obra de John Micklethwait e Adrian Wooldridge, de 2009: God is Back. How the Global Revival of Faith is Changing the World (Deus está de volta. Como o renascimento da fé está mudando o mundo, The Penguin Press, Nova Iorque). Segundo o livro, um autor é católico e outro ateu. Esta afirmação deixou-me perplexo porque, à primeira vista, estamos diante de uma obra de timbre apologético a favor da «religião americana». O objetivo é, realmente, defender o princípio de que Deus está com a América e está de volta na Rússia e nações satélites, na China, na África, na América Latina católica e cada vez mais evangélica. A exceção consiste na Europa democrática do secularismo e do cientificismo sem Deus. Os autores concluem, através dos números, que Deus está com os políticos mais influentes e que a política bem como os negócios andam bem com Deus. A introdução leva-nos para a China a ser invadida por igrejas evangélicas «subterrâneas» e pelo estudo da Bíblia sem crítica literal, sem Darwin e evolução, contra os homossexuais e os abortistas. É um Deus tipicamente americano, amigo da direita republicana e dos Presidentes que militam pelo Deus cristão. O fornecimento pormenorizado dos números é arrasador a favor de Deus e das suas igrejas. Segundo os autores, a democracia americana, a livre iniciativa dos negócios, o capitalismo, a industrialização e a investigação, se acompanhados pela oração produzem paz e felicidade. O livro é dividido em quatro partes.

[…]

O título da Conclusão: Aprender a viver com religião, é um hino à América cristã e tradicionalista: rica, poderosa, saudável, dominadora, salvadora, centrada na família e na liberdade, protegida por Deus, pelas leis, sem teorias da secularização. As grandes dinâmicas da modernidade – tecnologia e democracia, escolha e liberdade - fortalecem a religião. A religião é, portanto, compatível com todas as formas da modernidade. Deus está de volta e para melhor. De facto, a América e o Deus da América é uma «teocracia» especial porque, como se afirma: «o homem, quer os novos ateus gostem ou não, é um animal teotrópico: se lhe derem a opção, é inclinado a acreditar num Deus». Mas esta América com o Deus de volta é exclusivista, segregacionista, totalitária, colonizadora e imperialista. A regra evangélica: «Dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César» não se pode aplicar a esta América de Deus. Os ateus e os agnósticos, para quem acredita em Deus, também são filhos de Deus, embora sem o saberem ou experimentarem. E se a busca da Verdade, é o bem próprio de todos os humanos, só Deus sabe quem busca a Verdade. E nenhuma religião possui o monopólio da Verdade. Pessoalmente defendo que o ateísmo e o laicismo não podem ser o elo mais forte de coesão do ser humano. Nem o cientificismo como ídolo ou ideologia da totalidade. Só o elo mais forte que defenda o valor sagrado e intangível da pessoa. E, em minha opinião, esse elo foi e será a religião, se não for – também ela – transformada em ideologia. Este erro já aconteceu, na Europa, com a Cristandade. Quando arvoramos os nossos princípios a um absoluto ideológico entramos no caminho da idolatria: seja o absoluto do ateísmo, do tradicionalismo, do racionalismo, da religião. Com estes absolutos não há diálogo. O ser humano é, realmente, um ser «teotrópico»? Para Santo Agostinho cristão assim aconteceu. Mas trata-se precisamente de um acontecimento entre Deus e o homem. De permeio há um campo aberto de liberdade que não entendemos seja com a filosofia, a metafisica, as ciências positivas ou a teologia. Dizem todos os místicos de todas as religiões que, chegando a este ponto, tudo é graça. A Bíblia não tem um modelo científico, nem entra em colisão com o ateísmo, que não existia naquele tempo, à maneira de hoje. Seria um total anacronismo. Logo, o diálogo entre a Bíblia e a ciência passa pela aculturação e inculturação. Foram e continuam a ser os muitos falsos problemas que, ao longo da história, desde o aparecimento da ciência como a entendemos hoje, o criacionismo e o fundamentalismo bíblico suscitou.

[…]

O espírito de Assis deveria estabelecer, para todos os Estados e religiões, o horizonte de uma humanidade em busca da paz, harmonia, saúde, relações públicas, economia, cultura universal que respeite a liberdade e os direitos humanos. Estamos apenas no início do novo paradigma. Não se trata, pois, da história cultural, político-religiosa, antes de Constantino e depois de Constantino, mas antes de Assis e depois de Assis. E ao falar de Assis, não me move o facto de este acontecimento ter partido dum Papa da Igreja Católica Romana. Poderia ter partido doutra religião. Não é, pois, um acontecimento que coloque «em bicos dos pés» a Igreja Católica. Mas, em meu entender, é um acontecimento de significado universal que deverá ser pensado por todas as religiões e culturas. Será esta conclusão fruto duma pura utopia de boa vontade de um teólogo franciscano? Durante toda a história universal temos andado acorrentados a figuras e a doutrinas sem direito à «oposição» politica ou «oposição» religiosa. As democracias ocidentais e os direitos humanos são uma aquisição da cultura ocidental e do espírito cristão, embora em tensão dialética. É esta tensão que sempre existirá entre Religião e Política. A História tem sempre a última palavra e, em meu entender, não houve nem haverá História sem Religião.

Acredito que Deus existe.

Carreira das Neves

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PENSAMENTO

Adonis

Poeta

A sociedade que julga deter a verdade absoluta produz ignorância. Esta última não só ocupa o lugar da ciência e do saber, como se transforma numa revolta perpétua contra o saber e a ciência  

NOVO ARTIGO

A cultura da cobiça

A cultura da cobiça pelo poder tem estado presente ao longo da história da humanidade, mas foi após a invenção do dinheiro que ela adquiriu contornos desesperadores. Os países que são geridos desatentamente, com população indolente, mais cedo ou mais tarde acabam caindo nas garras dos oportunistas que vivem de tirar proveito das fraquezas alheias para ampliar seu poder e influência. O desequilibro é a nota dominante da economia global. Quem pode esperneia, outros se corrompem por dinheiro e se acomodam, permitindo que a decadência não tarde.

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